3/30/2004 12:13:34 PM

Clarinha:

Acho que você não entendeu muito bem o que eu disse e eu vou tentar ser mais clara (sem trocadilhos).

Eu acho (com CH) muito chata essa onda de ¿politicamente correto¿. As pessoas têm que viver se policiando com medo de que qualquer palavra ou idéia possa ofender alguém. E olha que eu nem estou falando das palavras mais pesadas, das que realmente são usadas nesse intuito ¿ aliás, eu li algumas delas no seu blog.

O que acontece com os judeus e os negros (que foram os citados na minha crítica ao filme), povos que sem sombra de dúvidas sofreram muito, é que acaba ficando (sem generalizar, é óbvio) um ranço de sentimento de perseguição. Vou te dar um exemplo: todos nós sabemos que a nossa colonização pelos negros se deu através da escravidão. Tribos africanas inteiras eram capturadas e trazidas em condições sub-humanas pra trabalhar nas terras do Brasil. Sabemos também que a miscigenação tem acontecido desde então. A raça brasileira, hoje é formada de uma linda mistura entre os negros escravos, os índios, os portugueses e os imigrantes de diversos países (entre eles, meus antepassados anarquistas italianos).

Como eu posso achar aceitável que exista uma cota para negros na universidade, se eu não consigo identificar o que seja um negro?! Existem algumas estatísticas sobre isso: dizem que 80 e tanto por cento dos presidiários tupiniquins e apenas 8 por cento dos universitários são negros. Agora pense bem, se colocarmos a Camila Pitanga na prisão, ela fará parte dessa estatística como sendo negra, já na universidade… Então dá pra notar que é impossível a gente conseguir definir quem integra a raça negra aqui. Uma vez ouve uma tentativa de padronização de raça. Ela foi feita por Hitler, para identificar os Judeus. Seu avô pode falar melhor que eu, no isso deu.

Eu penso que se o proceso seletivo para entrada na universidade é através de vestibular, que seja para todos, brancos, negros e pardos. A mudança deve ser feita anteriormente, na qualidade de ensino público. E isso, para todos, independente de cor, raça ou credo.

Você já ouviu falar nos veteranos de guerra que ficam com sentimentos persecutórios? Acho que é por ai. Muitas pessoas ao passarem por um trauma muito grande adquirem paranóias.

Quanto ao filme, eu penso que os judeus de hoje em dia, não devem ser responsabilizados pelas atitudes dos de 2000 anos atrás. Acho inclusive que se Jesus estivesse vivo hoje, seria morto pelos cristãos. Agora convenhamos: esse papo de não poder contar piadas étnicas, policiar o que se diz com medo de represálias, dá no saco!

Como você, no seu comentário, falou do seu avô, vou falar um pouco no meu. Meu avô foi um homem que lutou pela liberdade. Um homem que foi preso, torturado e exilado do país por causa disso. Um escritor que já foi considerado subversivo e teve seus livros queimados em praça pública, numa verdadeira fogueira de bruxas. Meu velho passou sua vida trabalhando para que as pessoas pudessem ser o que eram.

Eu penso como ele: não precisamos concordar com o que ninguém pensa, mas devemos respeitar o direito dessa pessoa de dizer o que quiser.

PS- Eu conto piadas e loira, de judeu e de português. Mesmo assim não me considero preconceituosa.

Vou terminar com uma trova de Estevão da Escuna, poeta popular do Mercado das Sete Portas, Bahia

“O mundo só vai prestar

para nele se viver

no dia em que a gente ver

um gato maltês casar

com uma alegre andorinha

saindo os dois a voar

o noivo e sua noivinha

Dom gato e dona Andorinha”


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