11/29/2004 05:08:23 PM

Papo de Baiano

Quando eu conheci Jorge Amado em Paris, ele me levou para almoçar num bistrô perto do seu apartamento no Marais. Ao longo do caminho, fiquei pensando em algo bem inteligente para impressionar o grande escritor. Ao sentarmos à mesa ele disparou: “Nizan, você já reparou como a bunda da Mãe Cleusa é grande?”.

A Bahia é assim. Desconcertante.

Pense num absurdo, multiplique por dois: na Bahia já aconteceu. Há em Salvador uma casa funerária que se chama Decorativa e uma companhia de táxi aéreo que se chama BATA (Bahia Táxi Aéreo).

É dentro deste espírito esportivo que a Bahia surpreende desde 1500. Caetano Veloso me disse rindo que os baianos e os judeus se julgam raças eleitas e (sic) que ambos têm razão.

Se somos ou não raça eleita, há controvérsias. Mas que é uma raça privilegiada não há dúvida. Castro Alves, Rui Barbosa, Jorge Amado, Assis Valente, João Gilberto, Caetano, Gal, Gil, Bethânia, Daniela Mercury, Glauber Rocha, Dorival e Nana Caymmi, Raul Seixas, Ivete Sangalo e agora Piti. Não pode ser coincidência.

Não é.

É fruto da energia que o índio enterrou, que o português descobriu misturado com o axé que o negro trouxe. É essa energia que buscam os cansados, os estressados, os sem esperança, os de alma ou cadeira dura. E a Bahia os acolhe com sua graça e sua benção.

Dianne Vreeland diz na peça Full Gallop, grande sucesso na Broadway, que o azul mais bonito é o céu da Bahia. Tudo na Bahia tem luz, sobretudo as pessoas. Que em sua simplicidade, com sua fé, com suas peles negras e dentes alvos, dançam, cantam e iluminam um mundo rico, mas cada vez mais pobre. Um desses endinheirados, mas pobres de espírito, certa vez resolveu pegar no meu pé, numa festa, e me perguntou: “Se a Bahia é tão boa, porque você não mora lá?”. O Orixá me ajudou e eu respondi na lata: “Porque lá eu não me destaco, são todos baianos”.

Nisan Guanaes

E aí, você tem o privilégio de ser baiano?

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11/26/2004 12:12:23 AM

Vozes d’África

Castro Alves

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

Qual Prometeu tu me amarraste um dia

Do deserto na rubra penedia

– Infinito: galé! …

Por abutre – me deste o sol candente,

E a terra de Suez – foi a corrente

Que me ligaste ao pé…

O cavalo estafado do Beduíno

Sob a vergasta tomba ressupino

E morre no areal.

Minha garupa sangra, a dor poreja,

Quando o chicote do simoun dardeja

O teu braço eternal.

Minhas irmãs são belas, são ditosas…

Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas

Dos haréns do Sultão.

Ou no dorso dos brancos elefantes

Embala-se coberta de brilhantes

Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia…

Ganges amoroso beija a praia

Coberta de corais …

A brisa de Misora o céu inflama;

E ela dorme nos templos do Deus Brama,

– Pagodes colossais…

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! …

A mulher deslumbrante e caprichosa,

Rainha e cortesã.

Artista – corta o mármor de Carrara;

Poetisa – tange os hinos de Ferrara,

No glorioso afã! …

Sempre a láurea lhe cabe no litígio…

Ora uma c’roa, ora o barrete frígio

Enflora-lhe a cerviz.

Universo após ela – doudo amante

Segue cativo o passo delirante

Da grande meretriz.

………………………………

Mas eu, Senhor!… Eu triste abandonada

Em meio das areias esgarrada,

Perdida marcho em vão!

Se choro… bebe o pranto a areia ardente;

talvez… p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!

Não descubras no chão…

E nem tenho uma sombra de floresta…

Para cobrir-me nem um templo resta

No solo abrasador…

Quando subo às Pirâmides do Egito

Embalde aos quatro céus chorando grito:

“Abriga-me, Senhor!…”

Como o profeta em cinza a fronte envolve,

Velo a cabeça no areal que volve

O siroco feroz…

Quando eu passo no Saara amortalhada…

Ai! dizem: “Lá vai África embuçada

No seu branco albornoz. . . ”

Nem vêem que o deserto é meu sudário,

Que o silêncio campeia solitário

Por sobre o peito meu.

Lá no solo onde o cardo apenas medra

Boceja a Esfinge colossal de pedra

Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas

As cegonhas espiam debruçadas

O horizonte sem fim …

Onde branqueia a caravana errante,

E o camelo monótono, arquejante

Que desce de Efraim

…………………………………

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!

É, pois, teu peito eterno, inexaurível

De vingança e rancor?…

E que é que fiz, Senhor? que torvo crime

Eu cometi jamais que assim me oprime

Teu gládio vingador?!

………………………………….

Foi depois do dilúvio… um viadante,

Negro, sombrio, pálido, arquejante,

Descia do Arará…

E eu disse ao peregrino fulminado:

“Cão! … serás meu esposo bem-amado…

– Serei tua Eloá. . . ”

Desde este dia o vento da desgraça

Por meus cabelos ululando passa

O anátema cruel.

As tribos erram do areal nas vagas,

E o Nômada faminto corta as plagas

No rápido corcel.

Vi a ciência desertar do Egito…

Vi meu povo seguir – Judeu maldito –

Trilho de perdição.

Depois vi minha prole desgraçada

Pelas garras d’Europa – arrebatada –

Amestrado falcão! …

Cristo! embalde morreste sobre um monte

Teu sangue não lavou de minha fronte

A mancha original.

Ainda hoje são, por fado adverso,

Meus filhos – alimária do universo,

Eu – pasto universal…

Hoje em meu sangue a América se nutre

Condor que transformara-se em abutre,

Ave da escravidão,

Ela juntou-se às mais… irmã traidora

Qual de José os vis irmãos outrora

Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço

Role através dos astros e do espaço

Perdão p’ra os crimes meus!

Há dois mil anos eu soluço um grito…

escuta o brado meu lá no infinito,

Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…

Faça um verso

11/25/2004 02:04:37 PM

Coisas de menina

Que eu tenho 31 anos todo mundo já sabe, não faço questão de esconder minha idade. Minha vó diz uma coisa que eu concordo plenamente. É muito melhor ver as pessoas espantadas e incrédulas com a realidade do que depois elas saírem falando pelas costas, XX anos?! Coitada. Ela ta acabada. Comigo sempre acontece a primeira coisa: ninguém acredita na minha idade (aliás, nem na da minha avó. Você sabia que D. Zélia tem 88 anos?), nunca consegui entrar em filme proibido antes do tempo, e até bem depois de já ter idade suficiente, sempre tinha que mostrar a identidade.

Quando eu era criança, pensava no longínquo ano 2000, quando eu já teria a avançada idade de 27 anos e bem imaginava bem diferente do que sou. Aumentaram as obrigações e responsabilidades, me casei e chegaram os filhos (depois dos 27), mas eu continuo sendo a mesma menina moleca que adora um parque de diversões, sobe em árvores pra ¿comer fruta do pé¿ e gosta de brincar e contar piadas.

Uma vez a filha de uma amiga, aos nove anos me veio com essa:

– Mary, eu sei por que as crianças gostam tanto de você.

E eu: – Ah, é? E por que?

– Por que você é adulta mas continua sendo criança.

Achei lindo e carrego essa explicação comigo até hoje.

Minha amiga Ananda de 4 anos também falou pro pai. ¿ sabe por que eu gosto de Maria João? Por que ela é adulta mas nem parece.

Cuca (meu ¿filho emprestado¿ mais velho) outro dia me disse: – Mary você é a única adulta que eu conheço que tem um Game Boy. E assim eu vou somando amigos: infantis e juvenis.

Hoje eu tenho certeza que o espírito não envelhece (pelo menos não o meu) e não espero ser uma mulher madura aos 40, 50 ou 80 (tomara que eu chegue lá). Quero ser a mesma menina que sou hoje, só que com mais experiência e muito mais histórias pra contar.

Se pronuncie

11/18/2004 09:40:30 PM

Galinha come milho e papagaio leva a fama

Acabo de lembrar de um filme que eu não sei o nome. São 3 histórias sobre gato (acho que é o mesmo gato nas 3). Na primeira um cara quer parar de fumar e procura uma clínica suspeitíssima. O método deles é no mínimo insólito… Primeiro avisam que se pegarem ele fumando vão colocar a mulher dele pra tomar choque numa sala e pra ilustrar a cena pegam o pobre felino e colocam na tal sala. Pegando a segunda vez, colocam a mulher dele no lugar… da terceira cortam um dedo da mão dele e assim por diante.

Na segunda história o amante de uma mulher é colocado no parapeito de um prédio altíssimo (onde está o bendito gato) e tem que dar a volta inteira no edifício por fora. Aí pombos bicam seus pés e um monte de outras coisas…

No terceiro quadro, uma família com um filhinho pequeno, adota o miau. O menino é asmático e o animalzinho é proibido de ficar no quarto com ele. Acontece que de um buraco da parede sai um duende escrotésimo que sopra na boquinha do pequeno quando este dorme, para deixa-lo dispnéico. Adivinhem quem é o herói que caça o duende FDP? Ele mesmo: o Gato. Todo mundo expulsando ele e o bichinho se esgueirando pra proteger a criança. Não vou contar o final.

O que me fez lembrar desse filme, perdido em anos de memórias cinematográficas?

Meia hora atrás eu tava aqui lendo meus e mails quando Julia chega chorando muito. Parei e fui socorre-la. Me disseram que ela apertou muito o gato e ele mordeu-a. Tentei consolar a pequena dando um gelinho pra passar no lugar, colocando água maravilha e enchendo ela de carinho (nessas horas o carinho é um santo remédio). Todo mundo ficou meio de bode com Fellini por ter feito Juju chorar tanto. O gato alheio a todas as broncas que levou, continuou ¿brincando¿. Um tempo depois noto o dedinho meio inchadinho e o choro demorando tempo demais pra uma simples mordida felina que não sangrou nem nada. Quando fui investigar melhor, descobri um marimbondo, o autor do inchaço no dedo, morto entre as patinhas do siamês.

Mie aqui