6 de Agosto de 2001

jorge_amado (1)Eu saí do trabalho e passei em casa para buscar Fernando e Totó. O plano era irmos ao Araçá Azul (sítio recém comprado onde nos preparávamos para morar), levar material de limpeza. Na saída da rua Alagoinhas tocou meu celular. Era Rose, empregada de meus avós, avisando que meu avô tinha passado mal e acabado de ser levado ao Aliança. Voltei correndo para deixar meu cãozinho em casa e segui para o Hospital. Quando cheguei, encontrei meu Pai com Dôra, minha Tia Paloma, Tio James e Tia Lu e meu irmão, que estava chorando muito. Abracei todos e fui procurar minha avó que estava numa salinha de espera.

Jadelson Andrade, médico dos Velhos, chamou meu pai para conversar e naquele momento eu já sabia o que viria. Corri para o lado de D. Zélia, queria estar ali com ela, oferecendo todo meu amor naquele momento difícil. Era o melhor que eu podia fazer. Depois Jadelson foi até o lugar que estávamos, segurou as mãos de minha avó e contou que meu avô Jorge estava morto. D. Zélia, a pessoa mais forte que já conheci na vida, recebeu a notícia, uma das mais tristes de sua vida, chorou um pouco e continuou na saleta enquanto a imprensa começava a chegar ao hospital.

Meu pai foi resolver algumas questões práticas como a retirada do marca-passo e liberação do corpo enquanto nós, o resto da família, procuravamos dar algum conforto à nossa querida matriarca. Foi nesse momento que pela primeira vez eu disse pra minha avó, com o coração aberto, tudo que pensava dela.

Ela era (e sempre vai ser) a minha heroína. O grande exemplo a ser seguido. Uma mulher forte e doce, inteligente e guerreira que sempre buscou o otimismo como ferramenta para resolver as dificuldades que a vida apresenta. O amor deles dois era a maior referência de amor que eu conhecia. Tão lindo que parecia saído de um conto de fadas. Pra mim foi muito importante ter falado para ela tudo que eu sentia.

Depois fomos para casa dormir que o dia seguinte seria cheio e triste. Desde então o dia 6 de agosto passou a ser um marco pra mim. Ele marca o dia que a terra ficou um pouco menos alegre. O dia que meu avô se foi.

jorgezelia

15 comentários em “6 de Agosto de 2001”

  1. Mary

    Que coisa mais linda. Me emocionei lendo.
    Depois de te conhecer melhor entendo de onde veio tanta doçura e delicadeza. A história de seus avós é linda, não só pela importância cultural para a sociedade, mas por ser o retrato de como é amar de verdade pode ser pra sempre, de como se pode estar com alguém, completamente e pro resto da vida… coisas que a gente vê tão pouco hoje, na superficialidade que é o nosso dia a dia.

    Adoro ler teus textos, como já havia dito, vc tem muito de Dona Zélia, teu jeito de escrever é carinhoso e terno como ela colocava nos livros. Parece que coloca a gente no colo.

    bjs

    Viveca

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  2. Minha mãe tinha voltado do hospital para tomar um banho, jantar e recobrir as forças para continuar na saleta da UTI com minha vó durante a noite. O telefone tocou, era meu tio mais velho, contou a meu pai que meu avô se foi. Meu pai escolheu a pessoa mais prática pra contar: eu. Logo ele foi no quarto, disse a minha mãe que meu avô tinha piorado e os dois foram se arrumar para voltar ao hospital. Eu chamei minha irmã no quarto dela, levei até o meu, tranquei a porta e contei. Ela desabou. Para que minha mãe não percebesse, sentei no vaso do banheiro, coloquei-a no colo, como se fosse ainda uma criança, abracei-a. Ela tremia, chorava, não aceitava. Eu, no cerne do meu ser, mantive a calma e a única reaçao foi atirá-la no chuveiro para ver se água trazia algum conforto. Deu certo. Meus pais saíram e logo depois nós duas fomos atrás. Ligamos pra meu irmão no meio do caminho e como num passe de mágica chegamos todos juntos ao hospital. Lá estava minha vózinha, 51 anos de amor. O seu amor estava morto. Ela se emocionou mais ainda ao nos ver chegando. Não derramei uma lágrima se quer. No dia seguinte, depois de uma dolorosa madrigada no velório, enterro… na hora de fechar o caixão, eu desabei… e gritei bem alto para agradecer a ele o que ele foi pra nós e implorei, para que ele permanecesse nos vigiando e guiando de onde estivesse. Depois disso, nenhum 18 de junho foi igual e da sua saudade, eu entendo claramente.

    Bonito o seu texto. :ó)

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  3. Joãozinha, muito muito emocionante o seu texto. Estou aqui chorando. Que bom que você disse tudo isso à sua avó. Mas nem precisava, viu? Bastava ver a sua carinha quando olhava pra ela. Beijo!

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  4. Oi Mary. Karina me passou o link do seu blog. No momento que vi a foto de seu avô no topo me lembrei de um dia na faculdade em que estávamos na mesa do dominó e você tinha umas fotos de seus avós no quintal da casa deles. Você e mais algumas criaças estavam nela.
    Eu lembro da sua expressão quando pergutaram “Você conhece Jorge?” e a sua resposta “É, ele é meu avô.”
    Com certeza você não deve lembrar de mim, mas nunca esquecerei esse dia.
    É difícil conviver com o vazio que nossos queridos deixam…

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  5. As pessoas dizem que o tempo ajuda… talvez não doa todos os dias, mas volta e meia, um dispositivo é disparado e o coração aperta, vem aquele sentimento de falta de colo, mas não é de desamparo, é diferente. Só quem perdeu, sabe.
    Você é linda.
    Bjs

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  6. Maria, por conta da nova Central do Textão em que estou brincando e sendo feliz hoje, passei no seu blog, segui um link, cheguei aqui. Aí é só pra contar das alegrias que seus avós me deram na vida, de como eu, brasileirinha morando no estrangeiro, aprendi o Brasil pelos olhos de Jorge, de como, depois, o amei pelos olhos de Zélia…. claro, chorei lendo seu texto hoje, claro. Como se os tivesse conhecido de verdade. Que dúvida.

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    1. Que legal Renata. Meus velhos me fazem muita falta… agora trabalhando no Memorial é muito doido pq a falta se mistura com uma presença que muitas vezes é quase física. Beijinho

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