Bolinho de Mijadra

Outros possiveis títulos para esse post:

-Cozinha Lavoisier.

-Raspas e restos me interessam

-Transformando um almocinho saudável em larica

ou ainda:

-merenda para comer enquanto escrevo no blog.

Tudo começou porque meu grupo de amigas (todas inteligentes, cultas e prendadas) estava falando das delícias da Mijadra. Eu, pra não passar por ignorante, googlei o termo e descobri se tratar de um arroz de lentilhas com cebolas douradas. Embora eu não seja muito fã das ditas lentilhas, resolvi usar um saquinho que estava querendo sair da validade por aqui e hoje arriscamos o prato, na hora do almoço. É uma delícia.

Agora a noite, cheguei de uma reunião e pensando no que iria comer assistindo a novela, resolvi usar os restos do almoço e mais uma cenoura murchinha que jazia no fundo da gaveta de verduras para fazer uma versão do meu tradicional e laricoso bolinho de arroz.

Fiz assim:

Coloquei numa vasilha o resto da mijadra e mais um ovo, farinha de trigo pra dar o ponto (melento mas não tão molengo), uma pitada de sal e a cenoura ralada no ralo fino. misturei bem e fritei no óleo quente. O resultado? Sucesso absoluto de público e crítica. Todos adoraram, o que significa que a lentilha não vai perder a validade.

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Aí é só botar um nome em francês…

Hoje encontrei esse videozinho fofo da Max Haus. É o tipo de comercial que faz a gente parar e pensar. Um minutinho pra sacar que nossa vida não é melhor e nem pior que a das outras pessoas.

Me lembrou uma frase que escutei esses dias (não lembro exatamente das palavras usadas mas o sentido era esse):   É bem mais glamourosa a vida das pessoas que não conhecemos direito.

E como uma coisa puxa outra, lembrei de um texto antiguinho de Martha Medeiros que diz tudo. Vou copiar o ele aqui para que quem não teve oportunidade de ler.

“Festa no outro apartamento

Anos atrás a cantora Marina compôs com o irmão dela, o poeta Antônio Cícero, uma música que dizia: “eu espero/acontecimentos/só que quando anoitece/é festa no outro apartamento”. Passei minha adolescência inteira com esta sensação: a de que algo muito animado estava acontecendo em algum lugar, porém eu não havia sido convidada.

Até aí, nada de novo. Não há um único ser humano que já não tenha se sentido deslocado e impedido de ser feliz como os outros são – ou aparentam ser. O problema está em como a gente reage a isso. A grande maioria que espera “acontecimentos” fica ligada demais na festa do vizinho, se perguntando: como fazer para ser percebido? A resposta deveria ser: percebendo-se a si mesmo. Mas é o contrário que acontece: a gente passa a se vestir como todo mundo, falar como todo mundo, pensar como todo mundo. Só então consegue passe livre: ok, agora você é um dos nossos, a casa é sua.

As festas em outros apartamentos são fruto da nossa imaginação tão infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias de jornal. As pessoas alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas fraquezas, então fica parecendo que todos estão comemorando grandes paixões e fortunas, quando na verdade a festa lá fora não está tão animada assim.

É preciso amadurecer para descobrir que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar pela sala e também motivos pra se refugiar no escuro, alternadamente. Só que os motivos pra se refugiar no escuro não costumam ser revelados. Pra consumo externo, todos são belos, lúcidos, íntegros, perfeitos. “Nunca conheci quem tivesse levado porrada/todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”. Fernando Pessoa sacando que nada é o que parece ser.

Sua solidão, sua busca por paz interior, seus poucos e leais amigos, seus livros, suas músicas, fantasias, de desilusões e recomeços, tudo isso vale ser incluído na sua biografia, e pode ser mais divertido que uma balada em algum lugar distante. Pegar carona na alegria dos outros é preguiça, e quase sempre é furada. Quer festa? Promova-a dentro do seu apartamento.”