Desabafo do Caboclo

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Boa tarde Misifio, quem escrevinha aqui é o Caboclo Postadô. Fiz esse post como um protesto e peço a você que leia e se possível entenda minha situação: Eu sou um homem velho (esse negócio de melhor idade é balela. Melhor… coisíssima nenhuma), quase cego, com anos de serviços prestados à sociedade e especialmente a esse blog. Acontece que dona Maria, vendo meu cansaço e impossibilidade de continuar trabalhando para ela, primeiro me deu férias meio a contra-gosto e na sequencia vendo que eu não ia voltar mesmo, me aposentou. A-PO-SEN-TOU, entenderam? Isso significa que não carrego mais nenhuma responsabilidade de vir aqui nesse muquifo escrever uma linhazinha sequer.

Ouvi dizer por aí que a ideia de ressuscitar os blogs (coisa mais antiga e em desuso) foi de uma tal dona Tina (essa senhora deve ter tempo livre de sobra pra continuar escrevendo coisas nesses recantos esquecidos da internet). Juntou um monte de desocupados, como ela e dona Maria, e criaram uma tal de Central do Textão (entenderam o nome do troço? TEXTÃO. Além de inútil é grande). O lugar em sí não é mau. É bonitinho e arrumado, o que anda pegando é que é muito mal frequentado. Só tem aquele povo que ainda insiste em blogar (eu sei que esse verbo não existe mas você entendeu), dizem que são o “pièce de resistance” mas na verdade ainda não sacaram que as redes sociais são o futuro.

Estou aqui só pra dizer que fui, tou fora, parti a milhão. Me incluam fora dessa.

Atenciosamente

Caboclo Postadô

Dudu Vidaloka

dudu1Dudu chegou em minha vida assim: em setembro do ano passado minha mãe ligou pedindo auxilio para entrar na casa dela trazendo um gatinho. Ela tinha alimentado o bichinho, feito um carinho e o felino a seguiu até a porta. Como lá tem dois cães e um gato, uma carregava o pretinho e a outra segurava os cachorros.  Quando fechamos a porta da sala, ele desceu do colo, não procurou briga com Fifi (o outro gato, que por incrível que pareça é idêntico a ele e também não se incomodou com sua presença), deitou na escada e pediu carinho.

No dia seguinte meu sobrinho Miguel em visita a avó, batizou o gatinho: Dudu.  O felino de rabo macio ficou apenas um ou dois dias até descobrir que vizinho à nova casa estava o Memorial Casa do Rio Vermelho. Um lugar cheio de gente bacana pronta para lhe dar carinho e principalmente, muita ração. O esperto fazia assim: pela manhã comia em casa com Fifi, fugia rapidinho para não ser pego pelos cães pulava o muro, ia até a recepção e começava a miar. Alguém logo entendia o recado: -Dudu está com fome.  Assim ele comia novamente (ele é magrinho mas tem uma fome secular), depois deitava no sofá da sala, ou no banco do jardim e ficava só esperando o carinho que invariavelmente chegava. Às vezes das mãos de algum funcionário e outras, das mãos dos visitantes. Todos encantados com o jeito bonachão e carinhoso do gato..

De vez em quando ele desaparecia, deixando todos nós preocupados, mas depois de algum tempo reaparecia meio lenhado de brigas e sempre muito magro. Foi numa dessas idas e vindas que ele ganhou a alcunha de Vidaloka.  Antônio, meu filho, autor do apelido, todos os dias me perguntava por ele: – Mãe, cadê o Vidaloka do Dudu?  Final do ano ele sumiu por muito tempo, dele só ouvia rumores: “Dudu arrumou uma namorada na vizinhança…” “Foi visto na rua lá de baixo…” “estava debaixo de um carro, magro como a necessidade…”.

Um dia ele reapareceu, ainda mais magro e mais machucado. Não tive dúvidas, coloquei-o no carro e levei pra casa. Frida, minha gata, detestou o novo morador e de vez em quando atacava o pobrezinho.  Dudu nunca se defendeu: encolhia-se no canto ou fugia apavorado.  O gatinho conquistou imediatamente todos os humanos da casa. Seu passatempo favorito passou a ser vir para nosso colo amassar pãozinho, fazendo barulhinhos de satisfação, enquanto era acarinhado. Quando chegava a noite, se aninhava na cama das crianças, aquecendo-se no calor dos meus filhos.

Meu plano era esperar ele engordar um pouquinho e leva-lo p castrar.  Não tivemos tempo para isso. Frida entrou no cio e transformou-se numa besta-fera, assassina. Os ataques que já estavam melhorando, passaram a ser terríveis. Num apartamento pequeno, tínhamos 2 gatos que não podiam se encontrar em hipótese alguma por isso, resolvi trazê-lo novamente para o museu. Num dia de carnaval soltamos ele aqui no jardim colocando num cantinho uma vasilha de comida e outra de água.

A partir dalí o sumiço foi completo… minha filha chorou muito em casa e eu, roída de culpa, procurava-o pelo Rio Vermelho todos os dias quando vinha pro trabalho ou voltava pra casa. Nunca o achei.

Esses dias meu gatinho reapareceu, ainda mais magro, com muitas marcas de briga na nuca e algumas na barriga. Não dei chance para o azar: prendi ele, chamei minha mãe para  vacinar e vermifugar e a noite cheguei com uma surpresa. Crianças em festa, Dudu Vidaloka em casa. Segunda-feira, antes que Frida entrasse novamente no cio, levei Dudu na Pet Family e literalmente “capamos o gato”. Antes de ir embora me deu um estalo e pedi um exame de sangue para sabermos se realmente estava tudo bem com ele.

Ontem os tais exames ficaram prontos e desde então eu estou muito triste e preocupada. O teste dele deu positivo para FIV, uma doença que mexe com a imunidade. Dudu está assintomático e se bem cuidado pode viver muitos anos, acontece que, embora a doença seja inofensiva para humanos, o mesmo não acontece para os outros felinos. A FIV é transmissível por mordidas, arranhões e até por usarem a mesma caixa de areia ou vasilhas de água e alimentação.

cb872222-b18a-464e-81e6-6a91f2bc3cb1Todo esse texto foi para explicar porque, mesmo com o coração na mão, nós não podemos ficar com Dudu. Quero pedir aos meus amigos que me auxiliem a encontrar um lar carinhoso para ele. Precisa ser uma pessoa que não tenha outros felinos, e queira ser dona do gato mais lindo e querido do mundo.

O Sal da Vida

amigosHoje de manhã recebi um email de um amigo querido convidando para “visitar o seu moinho”. Minha surpresa e alegria não poderia ser maior: eu já sou fã assumida de seus textos (infelizmente Cris é um rapaz ocupado e tem hábitos bissextos na atualização de seu Blog) e pra mim é sempre uma alegria ouvir as histórias do Rio Vermelho, bairro onde nasci, e de sua gente peculiar.

Para quem não conhece o Cristiano, faço questão de apresentar: Cris é blogueiro, artista plástico, administrados e filho do grande Floriano Teixeira. Um desenhista  e pintor de mão cheia, pessoa da mais alta qualidade, amigo de toda a vida. Floriano é responsável por ilustrar vários livros de meu avô, dando cores e caras a seus personagens.

Cristiano escreve com graça e molho, fala da gente simples do Rio Vermelho, das ruas de paralelepípedo, do mar, da igrejinha dos pescadores, da festa de Yemanjá e de sua família muito querida.

Hoje minha surpresa foi ouvi-lo falar do nosso quintal. O jardim da casa de número 33, da rua Alagoinhas. Ali nasci e cresci, comendo manga, cajá, jambo e carambola, disputando a tapa com os micos o espaço nas árvores.

Vou colar aqui um pedacinho do post que me emocionou só pra dar um gostinho do que vocês vão encontrar lá no blog do Cristiano.

jardimOutro dia, fiz para o almoço uma de minhas especialidades culinárias. Um suculento sanduiche de pão integral assado em meu forno, presunto com queijo, tomate e alface americana, aquela que parece um repolho e suas folhas são crocantes como o beijú. Não uso presunto de verdade, e sim aquilo que o fabricante orgulhosamente chama de “presunto de peito de peru light”. Ele anuncia aos quatro cantos que é saudável, e eu faço as pazes com a minha consciência pois, estou finalmente cuidando de minha saúde. Depois de montar minha criação gastronomica, coloquei-a num prato sobre a janela que dá para o jardim, enquanto fui até a cozinha procurar por alguma bebida que combinasse com a iguaria. Ao voltar com o copo cheio de chá gelado, o sanduiche não estava mais lá. Simplesmente havia sumido como por um encanto. Só deixaram o prato e nada mais. Como só havia eu em casa, aquele súbito desaparecimento tomora o contorno de um caso de mistério. Eu poderia jurar a mim mesmo que eu havia feito um sanduiche e o colocado por alguns minutos sobre a janela. Dei a volta pela porta da sala até o jardim para ter uma melhor perspectiva daquele intrigante mistério e, quem sabe até, desvendá-lo. Não tive trabalho para matar a charada. Por um galho do nosso mirrado pé de pinha, um sagüi fugia levando o meu almoço!

*Na foto do começo do post, da esquerda para direita:  Floriano Teixeira, Jorge amado, Aldemir Martins e Mirabeau Sampaio

Resposta para Janete

Minha amiga: você me perguntou se eu tinha certeza que estava tendo festa no céu com Mariozinho de convidado, não é? Embora eu tenha certeza que você sabe o que eu penso e acredito resolvi responder por aqui.
Eu acredito na reencarnação e também acredito que o lugar de encontros, sentimentos e de evolução é aqui no chão. Gosto, porém, das licenças poéticas e a imagem da chegada de um amigo me parece mais doce do que a da sua partida. “ a hora do encontro é também despedida. O trem que chega é o mesmo trem da partida”.
Lembrei de Gil cantando Metáfora e transcrevo-a aqui.

Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: “Lata”
Pode estar querendo dizer o incontível
Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: “Meta”
Pode estar querendo dizer o inatingível
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível
Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora