Sabão de herói

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Quando eu era criança, minha mãe fazia uma brincadeira na hora do banho que eu adorava: – Vamos fazer a roupa do rei? Dito isso, começava a ensaboar meu irmão e eu com uma camada grossa de espuma. Iniciava pela barba do soberano e seguia por todo o corpo. – Agora a camisa. vocês sabem que rei de verdade usa camisa de gola rolê e manga comprida  (ensaboava pescoço, barriga, sovacos e braços…).   Depois fazia as luvas, calças, meias e terminava nos sapatos, deixando a gente limpinho da cabeça aos pés.

Quando fiquei adulta, utilizei essa técnica com algumas crianças e o sucesso persistiu. A hora do banho deixava de ser uma chateação para ser uma brincadeira legal. O rei muitas vezes virava o punk (com um moicano na cabeça), o astronauta ou algo que o valha. Uma vez, Antônio, pequenininho, subverteu a ordem e daquela vez o banho não foi tão bem tomado. –Mãe, hoje quero ser o Tarzan, faz só a sunga, tá?

Com uns 3 anos Tom apareceu com um estafilococus bem chatinho e difícil de curar. A gente sarava uma feridinha e apareciam três novas, um saco.  Passeando por uma farmácia, em Fortaleza, ví uma embalagem de algo que me pareceu ser a solução no tratamento do “tapilococus” (quando alguém perguntava ao menino o que eras aquelas feridas ele sempre respondia assim). Era um “litrão” de um sabonete liquido fedido, que pelas promessas era a panaceia universal; meu filhote ficaria curado em dois tempos.

Chegando em casa, na hora do banho, fiasco total. O sabonete era bem líquido (nada cremoso) e ardia muito em contato com a pele lesionada. Antônio não queria saber de se lavar com aquele treco fedorento. Cabeça de mãe funciona criando estratégias: tornar o momento do banho num suplicio (com a criança sendo obrigada a usar o tal “Aseptol” e chorando contrariada), não fazia parte do meu script e por isso tirei da cartola um plano B.

Lembrando das roupas de rei, criei o “Sabão de Herói” uma substância poderosíssima capaz de transformar qualquer menininho num autêntico Super. Chamei o moleque e comecei a apregoar as maravilhas do poderoso elixir que eu havia conseguido depois de intensa luta com outra mãe pelo último frasco. Antônio imediatamente tirou a roupa querendo um banho “Heroificator”. Como com a sorte não se brinca e eu não contava que aquela vontade de se banhar fosse durar muito tempo, corri para o chuveiro om o menino,  munida do sabão de herói e de uma toalha. A passar o líquido na primeira perna, ouço um grito: -Ái, mãe, aaaardeeee. Não contei conversa: -Isso significa que está funcionando. Meu filho sinta aqui… olhe como o músculo está crescendo. Você já está mais forte, vamos passar logo na outra perna para não ficar uma mais grossa que a outra. Assim… Agora a Barriga. Nossa, estou vendo os gominhos do tanquinho. Acho que vou parar pra você não ficar forte demais… –Nãããão, Mãe! Faltam os braços e as costas, quero ficar todo fortão.

Foi assim que, heroicamente (e em pouco tempo), Super Tom venceu o terrível vilão Tapilococus.

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Os filhos de minha filha


Da esquerda pra direita: Iuri com Iara no colo, Ivan, Irene, Ivete, Ivânia e Ícaro.

Primeiro chegou Iuri (ou Ioury, como Juju o chamava, enrolando a língua, quando estava aprendendo a falar). Foi presente de tia Ana, no primeiro aniversário da menina e virou o brinquedo favorito dela para toda a vida. Iuri ia à escola, a todos os passeios, andava de sling e já fez várias viagens com a gente. O boneco reinou absoluto até que certa vez, em visita aos tios em Brasilia, Júlia viu em uma vitrine outro, igualzinho ao seu primogênito, só que em tamanho menor. Juju não resistiu e puxando tio Bruno pelo braço, o levou até a loja e com a carinha mais doce pediu: – Compra pra mim aquela bonequinha pretinha? É Iara, a irmanzinha pequena de meu Iuri. E assim a família começou a crescer.

Passados alguns anos, eu estava com minha mãe batendo perna em Lisboa, esperando uma conexão demorada, quando senti cheirinho de chocolate saindo de uma loja. Fui guiada pelo olfato para um grupo de bonecos e bonecas, de cores, roupas e cabelos diferentes. Uns com cheiro de baunilha e outros de chocolate. Estava longe das crianças e vi alí uma excelente oportunidade de levar uma lembrancinha. Escolhi uma boneca de saiota e camiseta de flores, com um lacinho azul na cabeça e dei o nome de Irene. Já ia saindo da loja quando minha mãe se encantou  outro dos bonecos e sugeriu: -levo esse aqui e eles fazem um casalzinho. Como ele é português, vai ser o Vasco. Irene e Vasco viajaram, passearam, dormiram no calor do lume lá na Casa do Ribeiro e chegaram ao Brasil, na família dos Iuris… Júlia amou as novas aquisições, pensou um pouquinho e confessou: -Mãe, meus filhos todos começam com I, será que vovó vai ficar chateada comigo se Vasco virar Ivan? Assim o gajo d’além mar foi rebatizado.

Depois veio Ivete, encontrada nas prateleiras de um supermercado aqui de Salvador. Bochechuda e carequinha é a mais clarinha de todos os irmãos. Achávamos que com o crescimento da menina, a coleção estava completa. Erramos feio… numa posterior viagem, dessa vez com as crianças, me ví novamente na porta da loja com cheiro de chocolate. Aproveitei a oportunidade e comprei Dimitri para presentear uma sobrinha (esse nome é outra história. Foi um sonho que tive com um menino que eu tirava de um orfanato e levava para mim). Na hora de pagar , vejo na minha cestinha mais dois cheirosinhos. Julia explicou: -mãe, Ícaro tem cabelo liso, nenhum dos Iuris é como ele, e Ivânia é tão cabeludinha, veja como ela é linda. Não posso deixar eles aqui, coitados.

Foi assim que a coleção/familia chegou ao tamanho que tem hoje. A menina, agora adolescente, já não dá muita bola aos seus filhos, mas eles continuam morando na estante do seu quarto perfumando o ambiente e minhas recordações.

13 de Maio

Hoje é Sexta-feira 13, a primeira desse ano de 2016. É o dia da aparição de Nossa Senhora de Fátima aos 3 pastorinhos lá em Portugal. É também o dia que em que através da lei Áurea, assinada pela princesa Isabel (aquela que tem muitos nomes), foi abolida a escravidão no Brasil. A 12 anos essa data passou a ter um significado mais que especial para mim com o nascimento de meu filho Antônio. Parece que foi ontem e ao mesmo tempo não consigo imaginar a vida sem meu menino, ter ele é tão necessário quanto respirar.

Desde criança, quando eu me imaginava mãe, via ao meu lado um menino sapeca, bem do jeitinho que meu filho é. Quando engravidei de Júlia, tive certeza que seria uma menina e com seu nascimento conheci “a sorte do amor tranquilo, com sabor de fruta mordida”, do qual falava Cazuza. Era atávico. Ela é minha e eu sou dela, sem dúvidas e nem questionamentos, apenas é e pronto.

Pouco depois engravidei novamente, desde a barriga já sentia tudo mudado, sabia que vinha um menino e intuí que ser mãe é gigante. Com seu nascimento percebi a grandeza de ter dois filhos, dois amores que são maiores que eu e ao mesmo tempo tão diferentes. Antônio me faz viver com ele aquele sentimento que dispara o coração e deixa sem fôlego, aquela paixão doida que faz suar a palma da mão. Nunca foi um mar de águas calmas. Que balela aquela conversa de que se ama igual todos os filhos.

Meu menino cresceu, e continua crescendo, me deixando sem ar de tanto amor. É lindo e quando ele sorri fecha os olhinhos, no sorriso mais encantador do mundo inteiro. Filho, desejo pra sua vida o melhor sempre: saúde, sorte, alegria, luz paz e amor. Te amo de amor de mãe.

Você é o Tom que traz música pra minha vida.

Dudu Vidaloka

dudu1Dudu chegou em minha vida assim: em setembro do ano passado minha mãe ligou pedindo auxilio para entrar na casa dela trazendo um gatinho. Ela tinha alimentado o bichinho, feito um carinho e o felino a seguiu até a porta. Como lá tem dois cães e um gato, uma carregava o pretinho e a outra segurava os cachorros.  Quando fechamos a porta da sala, ele desceu do colo, não procurou briga com Fifi (o outro gato, que por incrível que pareça é idêntico a ele e também não se incomodou com sua presença), deitou na escada e pediu carinho.

No dia seguinte meu sobrinho Miguel em visita a avó, batizou o gatinho: Dudu.  O felino de rabo macio ficou apenas um ou dois dias até descobrir que vizinho à nova casa estava o Memorial Casa do Rio Vermelho. Um lugar cheio de gente bacana pronta para lhe dar carinho e principalmente, muita ração. O esperto fazia assim: pela manhã comia em casa com Fifi, fugia rapidinho para não ser pego pelos cães pulava o muro, ia até a recepção e começava a miar. Alguém logo entendia o recado: -Dudu está com fome.  Assim ele comia novamente (ele é magrinho mas tem uma fome secular), depois deitava no sofá da sala, ou no banco do jardim e ficava só esperando o carinho que invariavelmente chegava. Às vezes das mãos de algum funcionário e outras, das mãos dos visitantes. Todos encantados com o jeito bonachão e carinhoso do gato..

De vez em quando ele desaparecia, deixando todos nós preocupados, mas depois de algum tempo reaparecia meio lenhado de brigas e sempre muito magro. Foi numa dessas idas e vindas que ele ganhou a alcunha de Vidaloka.  Antônio, meu filho, autor do apelido, todos os dias me perguntava por ele: – Mãe, cadê o Vidaloka do Dudu?  Final do ano ele sumiu por muito tempo, dele só ouvia rumores: “Dudu arrumou uma namorada na vizinhança…” “Foi visto na rua lá de baixo…” “estava debaixo de um carro, magro como a necessidade…”.

Um dia ele reapareceu, ainda mais magro e mais machucado. Não tive dúvidas, coloquei-o no carro e levei pra casa. Frida, minha gata, detestou o novo morador e de vez em quando atacava o pobrezinho.  Dudu nunca se defendeu: encolhia-se no canto ou fugia apavorado.  O gatinho conquistou imediatamente todos os humanos da casa. Seu passatempo favorito passou a ser vir para nosso colo amassar pãozinho, fazendo barulhinhos de satisfação, enquanto era acarinhado. Quando chegava a noite, se aninhava na cama das crianças, aquecendo-se no calor dos meus filhos.

Meu plano era esperar ele engordar um pouquinho e leva-lo p castrar.  Não tivemos tempo para isso. Frida entrou no cio e transformou-se numa besta-fera, assassina. Os ataques que já estavam melhorando, passaram a ser terríveis. Num apartamento pequeno, tínhamos 2 gatos que não podiam se encontrar em hipótese alguma por isso, resolvi trazê-lo novamente para o museu. Num dia de carnaval soltamos ele aqui no jardim colocando num cantinho uma vasilha de comida e outra de água.

A partir dalí o sumiço foi completo… minha filha chorou muito em casa e eu, roída de culpa, procurava-o pelo Rio Vermelho todos os dias quando vinha pro trabalho ou voltava pra casa. Nunca o achei.

Esses dias meu gatinho reapareceu, ainda mais magro, com muitas marcas de briga na nuca e algumas na barriga. Não dei chance para o azar: prendi ele, chamei minha mãe para  vacinar e vermifugar e a noite cheguei com uma surpresa. Crianças em festa, Dudu Vidaloka em casa. Segunda-feira, antes que Frida entrasse novamente no cio, levei Dudu na Pet Family e literalmente “capamos o gato”. Antes de ir embora me deu um estalo e pedi um exame de sangue para sabermos se realmente estava tudo bem com ele.

Ontem os tais exames ficaram prontos e desde então eu estou muito triste e preocupada. O teste dele deu positivo para FIV, uma doença que mexe com a imunidade. Dudu está assintomático e se bem cuidado pode viver muitos anos, acontece que, embora a doença seja inofensiva para humanos, o mesmo não acontece para os outros felinos. A FIV é transmissível por mordidas, arranhões e até por usarem a mesma caixa de areia ou vasilhas de água e alimentação.

cb872222-b18a-464e-81e6-6a91f2bc3cb1Todo esse texto foi para explicar porque, mesmo com o coração na mão, nós não podemos ficar com Dudu. Quero pedir aos meus amigos que me auxiliem a encontrar um lar carinhoso para ele. Precisa ser uma pessoa que não tenha outros felinos, e queira ser dona do gato mais lindo e querido do mundo.

Pedro e festa da barriga.

Estávamos fazendo um cruzeiro em família e naquela noite Pedro (4 anos) não estava muito interessado em comer o jantar. Sentei ao seu lado e, lembrando da técnica ensinada pelas Motherns, lancei mão da “festa da barriga” para alimentá-lo. Comecei assim: – Você não sabe da maior…
E fingindo que contava uma super fofoca continuei: – Soube que tá tendo a maior festança dentro de sua barriguinha e a comida já está se arrumando para participar.
Enchi a primeira colher e segui entrando no clima: – O feijão vestiu seu terno marrom e está arrumadíssimo. agora ele pega carona na colher e…
imito a voz do feijão “-Pedrinho, abre a boca que eu já cheguei”
Pedro soltou uma gargalhada e abriu a boca para o primeiro convidado.
Depois veio dona Arroz, toda magrinha com seu vestido branco. Entrou correndo, sonhando em dançar com o feijão que tinha chegado mais cedo. Veio a colher das cenourinhas, entraram as ervilhas gordinhas e verdes, a batatinha frita nem parou na boca/portaria, seguiu cantando uma versão de “festa no ap” e assim o prato foi diminuindo enquanto a festa ficava cada vez mais animada.
Quando chegou a vez do pedacinho de carne entrar, a boca fechou-se e de nada adiantaram os meus apelos. A carne pedia pra ele abrir a porta, implorava, chorava dizendo que tinha comprado um vestido caríssimo para estrear na ocasião e o menino nada. Ria de boca fechada, sacudindo a cabeça de um lado para ou outro em sinal negativo.
Quando perguntei o que tinha acontecido, Pedro me explicou, taxativo: – A carninha não foi convidada.

Uma questão de lógica

(coloquei este post hoje a tarde e não sei o que aconteceu mas ele sumiu. Ainda bem que tinha becape)

No carro, voltando da escola com as crianças, entramos numa conversa interessantíssima.

Ju: -Mãe, o anjos existem?

Eu: -Existem

Ju: -E o que é anjo?

Eu: -Anjos são os mensageiros de Deus.

Aí ela para, pensa um pouquinho e continua perguntando:

-E Deus fala com a gente diretamente, sem precisar de anjo também?

Eu: -Fala sim, filha. Já aconteceu de você pensar em fazer uma coisa e então uma vozinha na sua cabeça falar assim: “Não faça. Isso não vai dar certo, não é coisa boa…” ?

Ju: -Ah… isso já aconteceu comigo sim.

Eu: -Pois é: essa é a voz de Deus falando diretamente na sua consciência.

Tom que estava calado, só ouvindo a conversa, entrou de sola: -Eu nunca ouvi voz nenhuma na minha cabeça. Eu ouço é você dizendo: “-Tom, não faça isso… Tom não faça aquilo…” . Aí o sem vergonha olhou pra mim, abriu os braços e com um sorriso zombeteiro concluiu: Mãe, você é Deus!