O Sal da Vida

amigosHoje de manhã recebi um email de um amigo querido convidando para “visitar o seu moinho”. Minha surpresa e alegria não poderia ser maior: eu já sou fã assumida de seus textos (infelizmente Cris é um rapaz ocupado e tem hábitos bissextos na atualização de seu Blog) e pra mim é sempre uma alegria ouvir as histórias do Rio Vermelho, bairro onde nasci, e de sua gente peculiar.

Para quem não conhece o Cristiano, faço questão de apresentar: Cris é blogueiro, artista plástico, administrados e filho do grande Floriano Teixeira. Um desenhista  e pintor de mão cheia, pessoa da mais alta qualidade, amigo de toda a vida. Floriano é responsável por ilustrar vários livros de meu avô, dando cores e caras a seus personagens.

Cristiano escreve com graça e molho, fala da gente simples do Rio Vermelho, das ruas de paralelepípedo, do mar, da igrejinha dos pescadores, da festa de Yemanjá e de sua família muito querida.

Hoje minha surpresa foi ouvi-lo falar do nosso quintal. O jardim da casa de número 33, da rua Alagoinhas. Ali nasci e cresci, comendo manga, cajá, jambo e carambola, disputando a tapa com os micos o espaço nas árvores.

Vou colar aqui um pedacinho do post que me emocionou só pra dar um gostinho do que vocês vão encontrar lá no blog do Cristiano.

jardimOutro dia, fiz para o almoço uma de minhas especialidades culinárias. Um suculento sanduiche de pão integral assado em meu forno, presunto com queijo, tomate e alface americana, aquela que parece um repolho e suas folhas são crocantes como o beijú. Não uso presunto de verdade, e sim aquilo que o fabricante orgulhosamente chama de “presunto de peito de peru light”. Ele anuncia aos quatro cantos que é saudável, e eu faço as pazes com a minha consciência pois, estou finalmente cuidando de minha saúde. Depois de montar minha criação gastronomica, coloquei-a num prato sobre a janela que dá para o jardim, enquanto fui até a cozinha procurar por alguma bebida que combinasse com a iguaria. Ao voltar com o copo cheio de chá gelado, o sanduiche não estava mais lá. Simplesmente havia sumido como por um encanto. Só deixaram o prato e nada mais. Como só havia eu em casa, aquele súbito desaparecimento tomora o contorno de um caso de mistério. Eu poderia jurar a mim mesmo que eu havia feito um sanduiche e o colocado por alguns minutos sobre a janela. Dei a volta pela porta da sala até o jardim para ter uma melhor perspectiva daquele intrigante mistério e, quem sabe até, desvendá-lo. Não tive trabalho para matar a charada. Por um galho do nosso mirrado pé de pinha, um sagüi fugia levando o meu almoço!

*Na foto do começo do post, da esquerda para direita:  Floriano Teixeira, Jorge amado, Aldemir Martins e Mirabeau Sampaio

6 de Agosto de 2001

jorge_amado (1)Eu saí do trabalho e passei em casa para buscar Fernando e Totó. O plano era irmos ao Araçá Azul (sítio recém comprado onde nos preparávamos para morar), levar material de limpeza. Na saída da rua Alagoinhas tocou meu celular. Era Rose, empregada de meus avós, avisando que meu avô tinha passado mal e acabado de ser levado ao Aliança. Voltei correndo para deixar meu cãozinho em casa e segui para o Hospital. Quando cheguei, encontrei meu Pai com Dôra, minha Tia Paloma, Tio James e Tia Lu e meu irmão, que estava chorando muito. Abracei todos e fui procurar minha avó que estava numa salinha de espera.

Jadelson Andrade, médico dos Velhos, chamou meu pai para conversar e naquele momento eu já sabia o que viria. Corri para o lado de D. Zélia, queria estar ali com ela, oferecendo todo meu amor naquele momento difícil. Era o melhor que eu podia fazer. Depois Jadelson foi até o lugar que estávamos, segurou as mãos de minha avó e contou que meu avô Jorge estava morto. D. Zélia, a pessoa mais forte que já conheci na vida, recebeu a notícia, uma das mais tristes de sua vida, chorou um pouco e continuou na saleta enquanto a imprensa começava a chegar ao hospital.

Meu pai foi resolver algumas questões práticas como a retirada do marca-passo e liberação do corpo enquanto nós, o resto da família, procuravamos dar algum conforto à nossa querida matriarca. Foi nesse momento que pela primeira vez eu disse pra minha avó, com o coração aberto, tudo que pensava dela.

Ela era (e sempre vai ser) a minha heroína. O grande exemplo a ser seguido. Uma mulher forte e doce, inteligente e guerreira que sempre buscou o otimismo como ferramenta para resolver as dificuldades que a vida apresenta. O amor deles dois era a maior referência de amor que eu conhecia. Tão lindo que parecia saído de um conto de fadas. Pra mim foi muito importante ter falado para ela tudo que eu sentia.

Depois fomos para casa dormir que o dia seguinte seria cheio e triste. Desde então o dia 6 de agosto passou a ser um marco pra mim. Ele marca o dia que a terra ficou um pouco menos alegre. O dia que meu avô se foi.

jorgezelia