João Pestana

Quando eu era criança minha mãe contava a história de um velhinho que carregava um pozinho para jogar nos olhos das crianças fazendo-as dormir, para que tivessem sonhos bons.
João Pestana é uma espécie de Morpheu do folclore português, que acompanha os pequenos nas plagas oníricas e para mim sua companhia sempre foi bem vinda. Ô coisa boa é sonhar.

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Novo código.

Um casal de visitantes aqui do Memorial estava na visita guiada e a mulher reclamava de tudo, incessantemente. De não poder sentar nos móveis, de que o som das projeções era alto e ela não conseguia ouvir a mediadora, que o ar condicionado do cinema estava frio… tudo virava queixa na boca da sujeita enquanto a nossa funcionária tentava agrada-la, mostrando coisas bonitas e interessantes.
Na saída a mulher reclamava muito e foi convidada a responder nossa pesquisa para deixar registradas suas queixas. Obviamente a megera meteu o pau, falando mal de tudo e de todos. O marido, coitado, com o olhar entre resignado e muito envergonhado, olha para nossa recepcionista  e pedindo desculpas, baixinho desabafa: “vocês não sabem o que é passar o Natal com ela!”
Adotamos o novo código.

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Mais q uma pizza

Sexta-feira a noite e eu resolvo pedir uma pizza. Quando abro o Ifood, vejo uma pizzaria nova e desconhecida. Embora fosse meio carinha, resolvi arriscar: Pizza dos Deuses.Ao abrir o cardápio achei bonitinho, as pizzas mais estranhas, batizadas com nomes de Deuses antigos… escolhi uma de cogumelos chamada Hefesto, pra mim e uma Isis, de peru com geleia de amoras pra Tom. 

Depois de mais de uma hora esperando resolvi ligar pra pizzaria e saber o q estava acontecendo. 

– Boa noite, pedi uma pizza a mais de uma hora pelo aplicativo e nem sinal dela…

– É a senhora Maria que está falando? 

– A própria. EM carne, osso e fome.

– Nós estávamos com um problema e tentei ligar para a senhora… É que a senhora pediu uma pizza egípcia e uma grega. Nós não podemos misturar as duas, as massas são diferentes.

– Mil desculpas, é que eu não sabia que tinha que entender de mitologia pra pedir uma pizza. 

– Não se preocupe, já resolvi aqui, falei com meu superior e dei um jeitinho baiano (falou rindo).sua pizza já está saindo daqui, peço desculpas pela demora.

Desliguei o telefone com a certeza que nunca mais pediria nessa pizzaria. Mais um pouquinho de tempo passou e Tom desceu p buscar nosso jantar. chegou entusiasmado, avisando que tinha vindo tb um brigadeiro de brinde e ele já tinha comido. Continuou falando: -ele veio numa Burgman dourada com desenhos de Deuses e vestido de centurião romano. 

Quando me entregou a caixa, achei bonita e interessante. Comentei com o menino que rapidamente disse: -Você não viu nada, abra ela aí…

Mais um susto. A massa redonda, não muito fina, com dois sabores diferentes, terminava em pequenos rolinhos que pareciam dedos com as unhas pintadas de dourado (depois descobri que era ouro em pó, comestível).  Dentro de cada dedinho desses vem um pouquinho do recheio. 

Olhando com atenção a caixa vejo que optaram por ambientar o meu pedido no Egito. “No antigo Egito as pizzas eram confeccionadas para servir aos reis e pessoas consideradas mais próximas das divindades. As carnes das caças, consumidas pelos faraós e sacerdotes, eram colocadas por cima da massa de pão, para dar mais sabor à iguaria. Os banquetes eram acompanhados por instrumentos de corda e percussão, já que os egípcios acreditavam que a música fora inventada peo deus Toth. ”

Mais embaixo, um QR code e um convite: “ouça a fascinante música egípcia e mergulhe em uma atmosfera mágica, vivenciando um verdadeiro ritual oriental às margens do rio Nilo”

Bom comemos e nos regalamos. Muito mais que uma pizza tivemos uma experiência dos sentidos. Recomendo (só não invente de misturar os panteões)

Sabão de herói

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Quando eu era criança, minha mãe fazia uma brincadeira na hora do banho que eu adorava: – Vamos fazer a roupa do rei? Dito isso, começava a ensaboar meu irmão e eu com uma camada grossa de espuma. Iniciava pela barba do soberano e seguia por todo o corpo. – Agora a camisa. vocês sabem que rei de verdade usa camisa de gola rolê e manga comprida  (ensaboava pescoço, barriga, sovacos e braços…).   Depois fazia as luvas, calças, meias e terminava nos sapatos, deixando a gente limpinho da cabeça aos pés.

Quando fiquei adulta, utilizei essa técnica com algumas crianças e o sucesso persistiu. A hora do banho deixava de ser uma chateação para ser uma brincadeira legal. O rei muitas vezes virava o punk (com um moicano na cabeça), o astronauta ou algo que o valha. Uma vez, Antônio, pequenininho, subverteu a ordem e daquela vez o banho não foi tão bem tomado. –Mãe, hoje quero ser o Tarzan, faz só a sunga, tá?

Com uns 3 anos Tom apareceu com um estafilococus bem chatinho e difícil de curar. A gente sarava uma feridinha e apareciam três novas, um saco.  Passeando por uma farmácia, em Fortaleza, ví uma embalagem de algo que me pareceu ser a solução no tratamento do “tapilococus” (quando alguém perguntava ao menino o que eras aquelas feridas ele sempre respondia assim). Era um “litrão” de um sabonete liquido fedido, que pelas promessas era a panaceia universal; meu filhote ficaria curado em dois tempos.

Chegando em casa, na hora do banho, fiasco total. O sabonete era bem líquido (nada cremoso) e ardia muito em contato com a pele lesionada. Antônio não queria saber de se lavar com aquele treco fedorento. Cabeça de mãe funciona criando estratégias: tornar o momento do banho num suplicio (com a criança sendo obrigada a usar o tal “Aseptol” e chorando contrariada), não fazia parte do meu script e por isso tirei da cartola um plano B.

Lembrando das roupas de rei, criei o “Sabão de Herói” uma substância poderosíssima capaz de transformar qualquer menininho num autêntico Super. Chamei o moleque e comecei a apregoar as maravilhas do poderoso elixir que eu havia conseguido depois de intensa luta com outra mãe pelo último frasco. Antônio imediatamente tirou a roupa querendo um banho “Heroificator”. Como com a sorte não se brinca e eu não contava que aquela vontade de se banhar fosse durar muito tempo, corri para o chuveiro om o menino,  munida do sabão de herói e de uma toalha. A passar o líquido na primeira perna, ouço um grito: -Ái, mãe, aaaardeeee. Não contei conversa: -Isso significa que está funcionando. Meu filho sinta aqui… olhe como o músculo está crescendo. Você já está mais forte, vamos passar logo na outra perna para não ficar uma mais grossa que a outra. Assim… Agora a Barriga. Nossa, estou vendo os gominhos do tanquinho. Acho que vou parar pra você não ficar forte demais… –Nãããão, Mãe! Faltam os braços e as costas, quero ficar todo fortão.

Foi assim que, heroicamente (e em pouco tempo), Super Tom venceu o terrível vilão Tapilococus.

Os filhos de minha filha


Da esquerda pra direita: Iuri com Iara no colo, Ivan, Irene, Ivete, Ivânia e Ícaro.

Primeiro chegou Iuri (ou Ioury, como Juju o chamava, enrolando a língua, quando estava aprendendo a falar). Foi presente de tia Ana, no primeiro aniversário da menina e virou o brinquedo favorito dela para toda a vida. Iuri ia à escola, a todos os passeios, andava de sling e já fez várias viagens com a gente. O boneco reinou absoluto até que certa vez, em visita aos tios em Brasilia, Júlia viu em uma vitrine outro, igualzinho ao seu primogênito, só que em tamanho menor. Juju não resistiu e puxando tio Bruno pelo braço, o levou até a loja e com a carinha mais doce pediu: – Compra pra mim aquela bonequinha pretinha? É Iara, a irmanzinha pequena de meu Iuri. E assim a família começou a crescer.

Passados alguns anos, eu estava com minha mãe batendo perna em Lisboa, esperando uma conexão demorada, quando senti cheirinho de chocolate saindo de uma loja. Fui guiada pelo olfato para um grupo de bonecos e bonecas, de cores, roupas e cabelos diferentes. Uns com cheiro de baunilha e outros de chocolate. Estava longe das crianças e vi alí uma excelente oportunidade de levar uma lembrancinha. Escolhi uma boneca de saiota e camiseta de flores, com um lacinho azul na cabeça e dei o nome de Irene. Já ia saindo da loja quando minha mãe se encantou  outro dos bonecos e sugeriu: -levo esse aqui e eles fazem um casalzinho. Como ele é português, vai ser o Vasco. Irene e Vasco viajaram, passearam, dormiram no calor do lume lá na Casa do Ribeiro e chegaram ao Brasil, na família dos Iuris… Júlia amou as novas aquisições, pensou um pouquinho e confessou: -Mãe, meus filhos todos começam com I, será que vovó vai ficar chateada comigo se Vasco virar Ivan? Assim o gajo d’além mar foi rebatizado.

Depois veio Ivete, encontrada nas prateleiras de um supermercado aqui de Salvador. Bochechuda e carequinha é a mais clarinha de todos os irmãos. Achávamos que com o crescimento da menina, a coleção estava completa. Erramos feio… numa posterior viagem, dessa vez com as crianças, me ví novamente na porta da loja com cheiro de chocolate. Aproveitei a oportunidade e comprei Dimitri para presentear uma sobrinha (esse nome é outra história. Foi um sonho que tive com um menino que eu tirava de um orfanato e levava para mim). Na hora de pagar , vejo na minha cestinha mais dois cheirosinhos. Julia explicou: -mãe, Ícaro tem cabelo liso, nenhum dos Iuris é como ele, e Ivânia é tão cabeludinha, veja como ela é linda. Não posso deixar eles aqui, coitados.

Foi assim que a coleção/familia chegou ao tamanho que tem hoje. A menina, agora adolescente, já não dá muita bola aos seus filhos, mas eles continuam morando na estante do seu quarto perfumando o ambiente e minhas recordações.